
Armadilhas fotográficas fizeram o registro raro de um gato-palheiro-do-pantanal (Leopardis braccatus) melânico. Outra novidade foi a presença da raposinha ou raposa-do-campo (Lycalopex vetulus). Primeiro ano de pesquisa listou 40 espécies de mamíferos na Unidade de Conservação. Gato-palheiro-do-pantanal (Leopardis braccatus) melânico foi registrado por armadilhas fotográficas no Parque Estadual do Morro do Diabo
Fundação Florestal
Armadilhas fotográficas instaladas no Parque Estadual do Morro do Diabo fizeram registros de espécies inéditas de mamíferos na área, ou seja, que não constavam na lista oficial da Unidade de Conservação localizada em Teodoro Sampaio (SP).
Um desses “flagrantes” foi duplamente especial: um gato-palheiro-do-pantanal (Leopardis braccatus) melânico – o melanismo deixa a pelagem mais escura e é considerado raro.
A descoberta é resultado do primeiro ano de um projeto-piloto de monitoramento realizado por pesquisadores da Fundação Florestal. Quatro Unidades de Conservação foram selecionadas para receberem a ação, entre elas o Morro do Diabo.
Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio (SP)
Fundação Florestal
Além do felino, a outra espécie que foi novidade para a Unidade de Conservação é a raposinha ou raposa-do-campo (Lycalopex vetulus). A espécie de canídeo foi registrada no parque pelas armadilhas fotográficas e também foi vista na área urbana de Teodoro Sampaio durante uma aula de um colégio, em uma praça.
“Eles filmaram e conseguimos confirmar o registro feito pelas armadilhas, de que ela realmente ocorre na região”, afirmou ao g1 a bióloga Andréa Pires Soares, que é pesquisadora e responsável pelo monitoramento de grandes mamíferos da Fundação Florestal.
Raposinha, ou raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), é novidade no Parque Estadual do Morro do Diabo
Fundação Florestal
Primeiro ano
Fruto de um workshop sobre a fauna ocorrido em 2019 pela Fundação Florestal, o projeto teve início em 2020 com a estruturação da equipe e a concepção do roteiro. As atividades de campo iniciaram-se em 2021.
Foram escolhidas quatro espécies-alvo, que são chamadas de “espécies guarda-chuvas”. “Pois, protegendo elas, abrimos um guarda-chuva de proteção para as outras espécies da comunidade ecológica, explicou a pesquisadora ao g1.
São elas:
Onça-pintada (Panthera onca)
Onça-parda (Puma concolor)
Anta (Tapirus terrestris)
Queixada (Tayassu pecari)
Das espécies-alvo do projeto, somente a queixada não foi registrada no Parque Estadual do Morro do Diabo, segundo contou Andréa ao g1.
A pesquisadora ainda destacou que o levantamento identificou e registrou sete onças-pintadas diferentes. A anta também é bastante frequente e pode ocupar até 93% da área do parque, conforme acrescentou a coordenadora do projeto.
Estudo identificou sete onças-pintadas (Panthera onca) diferentes no Morro do Diabo
Fundação Florestal
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Em um ano de levantamento, foram 10.827 imagens identificadas e um total de 40 espécies de mamíferos listadas, de pequeno a grande portes. Dessas, 32 são de médio e grande portes e quatro são exóticas, sendo elas o cachorro doméstico (Canis familiaris), o gato-doméstico (Felis catus), o boi (Bos taurus) e a lebre-europeia (Lepus europaeus).
“Os dados conseguidos serviram de base para se fazer mapas preditivos da ocupação das espécies-alvo de como elas usam e ocupam a área, permitindo que se planeje estratégias melhores para fiscalização e pesquisa”, explicou ao g1 Andréa Soares Pires.
Veja na tabela abaixo as espécies identificadas:
Mamíferos identificados no Parque Estadual do Morro do Diabo
LC – Pouco preocupante
NT – Quase ameaçada
VU – Vulnerável
EN – Em perigo
CR – Criticamente em perigo
EW – Extinta na natureza
EX – Extinta
DD – Dados insuficientes
NE – Não avaliada
** Animal do gênero citado, porém, de espécie ainda não identificada devido à falta de detalhes no registro provenientes de ângulo do registro, luminosidade, ou outras intercorrências.
Continuidade
O projeto deve continuar a longo prazo no Parque Estadual do Morro do Diabo. Na segunda quinzena de junho, novamente serão instaladas as armadilhas fotográficas em campo para o segundo ano de monitoramento.
“Todo ano as armadilhas ficam 120 dias em monitoramento. Depois, fazemos as análises dos dados e no próximo ano teremos resultados históricos de como está sendo a conservação das espécies nesse território protegido por lei”, explicou a pesquisadora ao g1.
Um protocolo avançado para as onças-pintadas na Unidade de Conservação que fica no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do Estado de São Paulo, também está sendo desenhado junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap).
Para a pesquisadora, o projeto é importante para “melhorar a efetividade da gestão do parque, atuando em ações estratégicas para a conservação do ambiente, aumentando a fiscalização em partes da área, fazendo tratativas com o DER [Departamento de Estradas de Rodagem] para minimizar o impacto dos atropelamentos, divulgando os resultados para conscientização sobre a fauna ameaçada”.
Armadilhas fotográficas foram instaladas para auxiliar no monitoramento de animais no Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio (SP), no extremo oeste do Estado de São Paulo
Fundação Florestal
Abrangência
Quatro áreas pilotos foram selecionadas pelos pesquisadores da Fundação Florestal para o desenvolvimento do projeto e para servirem de base para a elaboração do subprograma. São elas:
Estação Ecológica Jureia-Itatins, em Peruíbe (SP)
Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio
Núcleo Curucutu, no Parque Estadual da Serra do Mar, dividido entre os municípios de São Paulo (SP), Itanhaém (SP), Juquitiba (SP) e Mongaguá (SP)
Núcleo Itariru, no Parque Estadual da Serra do Mar, que compreende parte dos municípios de Itariri (SP), Juquitiba, Peruíbe, Miracatu (SP) e Pedro de Toledo (SP)
As armadilhas fotográficas são distribuídas pelas áreas, em diferentes tipos de vegetação, e a partir dos registros são feitas análises estatísticas para se obter as informações de como essas espécies se distribuem no território.
“Os resultados foram bastante promissores para este primeiro ano de monitoramento para podermos atuar na melhoria da fiscalização e gestão das áreas como um todo”, salientou a coordenadora do projeto.
Onça-parda ou suçuarana (Puma concolor) registrada por armadilhas fotográficas instaladas no Parque Estadual do Morro do Diabo
Fundação Florestal
Sobre as espécies inéditas no Morro do Diabo
Vulnerável à extinção, a raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) é a única espécie de canídeo brasileiro endêmica do Cerrado, bioma sob alta pressão antrópica e com menos de 20% de sua área original ainda em estado primitivo.
Conforme informações da Fundação Florestal repassadas ao g1, considerando as estimativas mais conservadoras, o Cerrado sofreu um desmatamento de 50% de sua área nos últimos 40 anos e, destes, pode-se estimar uma perda de 20% de área em um período de 15 anos (três gerações), que deve refletir em uma perda populacional equivalente para a espécie.
Este declínio não cessou. Estima-se que a espécie terá uma perda de hábitat de, pelo menos, 10% nos próximos 15 anos.
Considerando que a espécie também sofreu e continua sofrendo perdas importantes não quantificadas decorrentes de atropelamento, predação por cães domésticos, doenças, retaliação à suposta predação de animais domésticos, e alta mortalidade de filhotes/juvenis, o declínio populacional deve, em uma estimativa conservadora, ter sido de pelo menos 30% nos últimos 15 anos e deve atingir o limite de 30% nos próximos 15 anos.
Estudo identificou sete onças-pintadas (Panthera onca) diferentes no Parque Estadual do Morro do Diabo
Fundação Florestal
Em relação ao gato-palheiro-do-pantanal (Leopardus braccatus), não há informações sobre o grau de ameaça para o Estado de São Paulo, pois não é área de ocorrência da espécie, “o que demanda muita atenção”.
A espécie ocorre das áreas andinas do Peru à porção temperada da América do Sul, incluindo Pantanal e Brasil central.
Ainda segundo a Fundação Florestal, é um animal pouco estudado, com poucas informações sobre sua ecologia. É usualmente associado a hábitats com vegetação aberta, mas também pode ser encontrado em ambientes florestados.
Pegada de felino de grande porte encontrada durante os trabalhos de monitoramento
Fundação Florestal
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Mulher de Dom Phillips diz que corpos dele e do indigenista Bruno Pereira foram encontrados na Amazônia. Mas autoridades não confirmam. Eles estão desaparecidos há mais de uma semana. O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira (13) que “indícios levam a crer que fizeram alguma maldade” com o jornalista britânico Dom Phillips e com o indigenista brasileiro Bruno Pereira, desaparecidos há mais de uma semana na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas.
A mulher de Philips, Alessandra Sampaio, disse também nesta segunda que os corpos dele e de Pereira foram encontrados, informação que ainda não foi confirmada pelas autoridades brasileiras. A associação indígena que denunciou o desaparecimento dos dois também não confirmou a localização dos corpos.
Segundo Alessandra, ela recebeu uma ligação da Polícia Federal confirmando a localização de dois corpos, mas disse que eles ainda precisavam ser periciados para que a identificação pudesse ser feita.
Mulher de Dom Phillips afirma que corpos dele e Bruno Pereira foram encontrados
Bolsonaro comentou as operações de buscas durante entrevista à rádio CBN de Recife (PE), na qual foi questionado se acompanha o caso de perto.
“Os indícios levam a crer que fizeram alguma maldade com eles”, afirmou Bolsonaro. “Pelo prazo, pelo tempo, já temos hoje oito dias, indo para o nono dia que isso tudo aconteceu, vai ser muito difícil encontrá-los com vida. Eu peço a Deus que isso aconteça, que os encontremos com vida, mas os informes, os indícios levam para o contrário no momento”, disse o presidente.
Buscas
Segunda maior reserva indígena do Brasil, o Vale do Javari fica no Oeste da Amazônia, próximo à fronteira com o Peru. Bruno e Dom desapareceram fora da área da reserva, no trecho do Rio Itaquaí entre a comunidade de São Rafael e a sede do município de Atalaia do Norte.
Bombeiros do Amazonas encontraram, neste domingo (12), uma mochila com um notebook na região. A Polícia Federal informou que os pertences encontrados no Vale do Javari são mesmo dos dois desaparecidos. Segundo a Polícia Federal, foram encontrados ainda um cartão de saúde em nome de Bruno Pereira, uma calça preta, um chinelo preto, um par de botas também do indigenista, e um par de botas e uma mochila com roupas do jornalista britânico Dom Phillips.
Bruno chegou à região algumas semanas antes do encontro com Dom. Seu objetivo era fazer reuniões em cinco aldeias sobre a proteção do território. E depois ele encontraria Dom, fora da terra indígena.
O objetivo de Dom era fazer entrevistas com lideranças indígenas e ribeirinhos para um novo livro, chamado “Como Salvar a Amazônia?”.
Apenas no dia 1º de junho, quando Bruno já havia saído da terra indígena, ele e Dom se encontraram em Atalaia do Norte. Os dois então passaram a viajar juntos. O ponto mais distante a que eles chegaram foi o Lago do Jaburu.
Com a expedição praticamente concluída, Bruno e Dom começaram a subir o Rio Itaquaí no caminho de volta para Atalaia do Norte. Na manhã de domingo (5), eles pararam na comunidade de São Rafael. Bruno teria um encontro com o líder comunitário conhecido como “Churrasco”.
Bruno e Dom saíram de São Rafael às 6h30 de domingo (5). Segundo a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, eles estavam com uma lancha nova e combustível suficiente para o trajeto até Atalaia, que tem duração de cerca de duas horas. A demora fez a Univaja ligar o alerta e iniciar as buscas.
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Antes de desaparecer no Vale do Javari, jornalista preparava livro sobre soluções para a floresta, pela qual se encantou após se mudar para o Brasil em 2007. Após produzir dezenas de reportagens sobre a destruição da Amazônia, Dom Phillips se dedicava a um livro no qual pretendia expor soluções para manter a floresta em pé
Arquivo pessoal via BBC
“Amazônia, sua linda” — essa foi a última frase que o jornalista britânico Dom Phillips escreveu em suas redes sociais, cinco dias antes de desaparecer no Vale do Javari, no Amazonas, quando viajava com o indigenista Bruno Pereira, no último domingo (5).
As palavras — acompanhadas por um vídeo no qual um barco viaja lentamente por um rio amazônico, com uma mata exuberante no fundo — expõem a paixão que o britânico desenvolveu pela floresta após se mudar para o Brasil, em 2007.
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Num momento de crescente interesse internacional pela Amazônia, o jornalista produziu dezenas de reportagens sobre o bioma para o jornal britânico The Guardian e se tornou uma das principais vozes na imprensa estrangeira a documentar o avanço do desmatamento durante o governo Jair Bolsonaro.
O interesse dele pela Amazônia era tamanho que, em 2021, Dom começou a escrever um livro sobre soluções para manter a floresta em pé. Seu desaparecimento ocorreu durante uma das viagens de pesquisa para a obra.
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Papel dos indígenas
Segundo o sociólogo Felipe Milanez, Dom “tinha uma dedicação muito profunda em entender o Brasil”. Os dois ficaram amigos após Dom se mudar no início do ano para Salvador, terra natal da esposa do britânico, Alessandra Sampaio. O casal antes morava no Rio de Janeiro.
Segundo Milanez, Dom “se apaixonou” pela capital baiana. O sociólogo afirma que ambos costumavam praticar stand-up paddle em Salvador. Nas horas vagas, Dom dava aulas de inglês numa favela como voluntário.
“Era uma pessoa que rapidinho construía confiança, transparente, muito ético e discreto”, diz o amigo.
Dom Phillips pretendia contar em seu livro como povos indígenas fazem para preservar a floresta e se defender de invasores.
BBC
Milanez conta que Dom resolveu escrever o livro sobre a Amazônia porque queria se aprofundar no tema, algo que seu trabalho diário como repórter não lhe permitia.
Criado nos arredores de Liverpool, cidade industrial no noroeste da Inglaterra, o repórter “tinha uma formação de classe operária militante”, diz o amigo.
“Ele reportava uma situação familiar muito dura (na Inglaterra) e se identificava com as pessoas que sofrem aqui”, afirma Milanez.
“Era muito atento na escuta, muito verdadeiro, e queria ouvir o que as diferentes vozes do Brasil tinham a dizer sobre a Amazônia: cientistas, pesquisadores, gente que se importa.”
Amigos do britânico dizem que ele se interessou pelo Brasil inicialmente por causa da música, tema que ele enfocava no começo de sua carreira jornalística.
Em suas redes sociais, Dom exalta com frequência músicos brasileiros. Em 30 de abril, foi a um show de Gilberto Gil em Salvador e o definiu como “um gigante que representa muito do que é maravilhoso e poderoso na cultura brasileira”.
Em janeiro, após a morte da cantora Elza Soares, chamou-a de “grandiosa, única, brilhante”. Também costumava publicar fotos de frutas e pratos típicos brasileiros.
Dom Phillips cresceu nos arredores de Liverpool e tinha ‘formação de classe operária militante’, diz amigo
Arquivo pessoal via BBC
‘Passou a ser família’
Ultimamente, no entanto, a Amazônia e os povos indígenas eram os principais focos do interesse de Dom pelo Brasil.
Poucas semanas antes de viajar para o Vale do Javari, o britânico visitou aldeias do povo indígena Ashaninka, no Acre. O grupo é considerado um exemplo de sucesso na preservação ambiental e na conciliação de tradições com práticas modernas.
O líder Ashaninka Francisco Piyãko, que foi entrevistado por Dom na visita, lamentou à BBC o desaparecimento do britânico.
“É como se tivessem mexido diretamente com a gente, porque ele estava representando a nossa causa, a nossa história. Ele passou a ser família”, diz Piyãko.
Em vídeo gravado durante a visita, publicado no perfil no Twitter da Associação Ashaninka do Rio Amônia, Dom diz que as “terras indígenas são os lugares mais protegidos da Amazônia”, e que uma parte importante de seu livro seria sobre a “participação e protagonismo dos povos indígenas” na preservação da floresta.
Afirmou ainda que estava ali para “aprender um pouco com vocês: como é sua cultura, como vocês veem a floresta, como vivem dentro dela, como lidam com ameaças que vêm de invasores, garimpeiros e tudo mais”.
Cerimônia do povo indígena Yawanawá, um dos grupos que Dom Phillips pretendia visitar para a produção de seu livro
Sérgio Vale/Secom-AC
Biraci Nixiwaka, um dos líderes do povo Yawanawá, também do Acre, diz à BBC que Dom planejava visitar o território do grupo.
“Senti uma coisa muito boa dele, de querer fazer o bem, de querer abordar a questão da proteção da natureza, da floresta, da história dos povos indígenas”, afirma Nixiwaka, que diz ter conversado várias vezes com o britânico pelo telefone.
A preocupação com a floresta rendeu a Dom um dos momentos mais conturbados de sua estadia no Brasil.
Em 2019, numa coletiva de imprensa com o presidente Jair Bolsonaro (PL), Dom disse ao mandatário que “os números de desmatamento estão mostrando um crescimento assustador, o Ibama está dando menos multas, (fazendo) menos operações, os sinais que o governo está dando para a Europa não são positivos no sentido de proteção do ambiente”.
O britânico perguntou então como Bolsonaro pretendia “mostrar para o mundo que realmente o governo tem preocupação séria com a preservação da Amazônia”.
O presidente respondeu: “Primeiro, você tem que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês”.
O diálogo, compartilhado por Bolsonaro no Twitter, fez com que Dom fosse duramente criticado por apoiadores do mandatário. Mesmo assim, o britânico não deixou o assunto de lado.
O indigenista Bruno Araújo Pereira (ao centro), servidor da Funai que acompanhava Dom Phillips na viagem ao Vale do Javari
Divulgação/Funai
Expedição
O interesse de Dom pelo Vale do Javari, uma das áreas mais preservadas da Amazônia, o aproximou do indigenista Bruno Pereira, com quem ele viajava quando ambos desapareceram.
Em 2018, Dom acompanhou Bruno numa expedição de 17 dias à Terra Indígena Vale do Javari, que abriga uma das maiores concentrações de povos indígenas isolados do mundo.
Bruno — que na época coordenava o departamento da Funai (Fundação Nacional do Índio) responsável por indígenas isolados e recém-contatados — buscava monitorar os deslocamentos de um desses grupos para evitar conflitos com comunidades vizinhas.
Na reportagem em que narra a expedição, Dom descreve uma cena na qual Bruno “abre o crânio de um macaco cozido com uma colher e come seu cérebro de café da manhã”.
O animal fora caçado por indígenas que também participavam da viagem.
A naturalidade com que Bruno se portava na floresta e sua relação próxima com os indígenas chamaram a atenção do britânico, que passou a consultá-lo em várias reportagens.
Defesa contra invasores
Quando Dom regressou ao Vale do Javari no início deste mês, Bruno já não estava mais na Funai: ele havia se licenciado do órgão e agora assessorava diretamente a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), principal organização indígena local.
Segundo Leonardo Lennin, indigenista do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, o britânico queria ver na viagem como a Unijava estava usando tecnologia, como drones e imagens de satélite, para documentar invasões e denunciá-las às autoridades.
Lennin afirma que o trabalho dos indígenas “deveria ser complementar à fiscalização do Estado”. No entanto, segundo o indigenista, os órgãos públicos não têm feito a sua parte, o que forçou os indígenas a ampliar suas ações.
Por causa desses trabalhos de vigilância, Pereira e indígenas envolvidos vinham sofrendo ameaças, segundo a Unijava.
Olhar sofisticado
Quando desapareceu, Dom já havia completado cerca de dois terços da apuração para o livro, diz à BBC Margaret Engel, diretora-executiva da Alicia Patterson Foundation.
A fundação americana deu a Dom uma bolsa para que ele se dedicasse integralmente à obra, que seria entregue até o fim deste ano, segundo Engel.
O projeto teve início em 2021, quando a pandemia de Covid-19 se espalhava pelo Brasil e ainda não havia vacinas no país. Na época, havia grande temor quanto à possibilidade de que pessoas infectadas em cidades levassem a Covid-19 a aldeias indígenas.
Engel diz que Dom então viajou ao Reino Unido, que já aplicava vacinas em sua população, para se imunizar e poder viajar até as comunidades.
Dom Phillips pretendia entrevistar fazendeiros e garimpeiros em seu livro sobre a Amazônia, diz a esposa do britânico
Arquivo pessoal via BBC
Ela afirma que a fundação resolveu apoiar o britânico por considerar seu projeto relevante e original sobre a Amazônia.
“Muitos jornalistas soam alarmes quanto à degradação, mas Dom tem um olhar mais sofisticado, ele busca as soluções possíveis”, diz Engel.
Ela diz que Dom estava entusiasmado com o livro e queria mostrar que, apesar do pessimismo com a destruição da floresta, há “caminhos para impedir o desastre”. O britânico pretendia expor maneiras de preservar a floresta e, ao mesmo tempo, garantir o bem-estar de suas populações, afirma Engel.
“O projeto dele traz esperança em vez de desespero”, ela diz.
Amor pelos humanos e pela natureza
Em entrevista à escritora Ruth de Aquino, do jornal O Globo, a mulher de Dom, Alessandra Sampaio, disse que o marido “amava o ser humano”.
“Amava tanto que queria escutar a todos, dar voz a todos. Fazendeiros, garimpeiros. Não falava em vilões. Não queria demonizar ninguém. Sua missão era esclarecer as complexidades da Amazônia”, disse Sampaio, em texto publicado na última quinta-feira (9).
Em outra entrevista, para a TV Globo, na quarta-feira, Sampaio falou de outro amor de Dom, o amor pela natureza.
Mulher de Dom Phillips diz que viagem para Amazônia foi muito planejada
Segundo ela, para o marido, “Deus é natureza, ele encontrava Deus na natureza”.
“O que eu acho que o Dom gostaria é que as pessoas conhecessem a Amazônia que ele conheceu, que ele amava tanto. Afinal, a gente só cuida do que conhece, do que ama — então a proteção viria como consequência”, disse Sampaio para a BBC News Brasil.
Enquanto muitos estrangeiros e até mesmo brasileiros tratam a Amazônia como um espaço hostil e impenetrável, ele se admirava com a relação de indígenas com o bioma e o via como um lugar de beleza e fartura.
O deslumbramento do britânico com a floresta transborda na longa reportagem de 2018, quando Dom participou da expedição com Bruno Pereira para monitorar um grupo de indígenas isolados no Vale do Javari.
A missão, escreve o jornalista, ocorreu num momento em que os indígenas enfrentavam as maiores ameaças em décadas, “com dragas de garimpo de ouro altamente poluentes entrando nos rios a leste, pecuaristas se aproximando dos limites ao sul, e gangues de pescadores comerciais se aventurando no centro” de seu território.
Apesar das tensões, o texto tem momentos de puro deleite e encantamento, como quando Dom menciona a visão de “uma enorme, rara árvore de mogno, se espalhando majestosamente por um trecho de floresta espaçoso, manchado de sol”.
Ou quando descreve meninos indígenas que haviam batido “em uma colmeia para afugentar as abelhas” e depois compartilhavam “seu favo de mel vermelho-ferrugem, pingando mel doce e selvagem”.
“Para eles, esta não é uma selva proibida, mas um vasto supermercado orgânico cujas mercadorias estão escondidas para os não iniciados”, escreveu o britânico.
Onde muitos veem mato, Dom aprendeu a ver mata.

Segundo pesquisadores, bicho apresenta leucismo. Por causa de pouco pigmento, tem essa coloração.Animal foi encontrado na Praia do Leão. Filhote de tartaruga sem coloração é encontrado em Noronha
Um filhote branco de tartaruga marinha foi filmado no mar na Praia do Leão, em Fernando de Noronha. Segundo os pesquisadores da Fundação do Projeto Tamar esse é um animal raro e apresenta leucismo. Por causa de pouco pigmento, tem essa coloração (veja vídeo acima).
“O leucismo é uma anomalia genética que causa a falta parcial da pigmentação. É diferente do albinismo, que é a ausência total de pigmentação. Ambas as condições são raras em tartarugas marinhas”, explicou a coordenadora da Fundação Projeto Tamar, Rafaely Ventura.
Ventura disse, ainda, que essa anomalia deixa as tartarugas mais expostas aos predadores. Por isso, elas têm menos chances de sobrevivência na natureza.
“De cada mil filhotes, um ou dois chegam até a idade adulta. A dificuldade de um indivíduo nessa condição chegar a idade adulta é muito maior”, avaliou Rafaely Ventura.
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Filhote raro foi encontrado na Praia do Leão
Fundação Projeto Tamar/Divulgação
A tartaruguinha foi encontrada na quarta-feira (8). O filhote é da espécie Chelonia mydas , que é conhecimento popularmente como tartaruga-verde. A última vez que foram registradas tartarugas nessa coloração na ilha foi em 2015.
Os dois animais encontrados há sete anos foram encaminhados para as sedes do Projeto Tamar na Praia do Forte, na Bahia, e Aracaju, em Sergipe.
As duas tartarugas são criadas em aquários e ainda estão vivas. A direção do Tamar resolveu liberar no mar de Noronha o animal encontrado esta semana.
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Os animais encontrados há sete ansforam encaminhados para as sedes do
De acordo com a Apib, uso de aeronaves tem sido lento e não foram disponibilizadas embarcações suficientes. Jornalista Dom Philips e indigenista Bruno Pereira estão desaparecidos desde domingo (5). A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o governo não está fazendo o suficiente nas buscas pelo jornalista inglês Dom Philips e pelo indigenista Bruno Pereira, desaparecidos na Amazônia desde o domingo (5).
Na petição, a entidade diz que “ocorre que, apesar de veicular publicamente que está trabalhando neste sentido, o governo federal não está, de fato, empreendendo os esforços necessários” .
Manifestantes e familiares de Dom Philips protestam em Londres após desaparecimento
O documento foi enviado ao ministro Luís Roberto Barroso, relator de uma ação sobre o tema no Supremo.
A entidade apontou que:
as aeronaves disponíveis não foram utilizadas com celeridade e eficiência (o que é imprescindível para complementar as ações fluviais e terrestres, dadas as condições geográficas da região)
o número de embarcações e de agentes públicos atuando nas buscas é reduzido, o que torna o trabalho demorado, incompleto e insuficiente
A petição afirma ainda que o “aparato e as ações das instituições de Estado são fundamentais para o sucesso das buscas e apuração do ocorrido”.
“É indispensável que todas as autoridades públicas competentes permaneçam mobilizadas para uma efetiva busca e salvamento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, coordenando uma ação organizada das forças de segurança pública em cooperação com as organizações indígenas locais, que têm assumido, desde o primeiro momento, a iniciativa pelas buscas e apuração dos fatos, uma vez percebido o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips”, diz o documento enviado ao Supremo.
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Ação, que aconteceu na Praia do Porto de Santo Antônio, fez parte da programação da Semana do Meio Ambiente. Captura científica de tartarugas faz parte de atividades da Semana do Meio Ambiente em Noronha
O Projeto Tamar realizou, nesta quinta (9), a captura científica de tartarugas, em Fernando de Noronha. A atividade foi promovida na Praia do Porto de Santo Antônio e fez parte da programação da Semana de Meio Ambiente (veja vídeo acima).
Os pesquisadores chegaram logo cedo e fizeram o mergulho na região. Em menos de uma hora, eles retornaram com duas tartarugas verdes, espécie que tem o nome científico Chelonia mydas.
As tartarugas foram medidas e pesadas. Em uma delas, capturada pela primeira vez pelos estudiosos, foi feito o recolhimento de uma amostra da pele para análise de DNA.
O pessoal do Tamar explicou ao público o que estava sendo feito. A manicure Kathleen Luana, turista da cidade de Toledo (PR), acompanhou a captura.
“Nunca tinha visto uma tartaruga tão perto. Eu já acompanhava o trabalho do Tamar de longe. Adoro tartaruga, acho a coisa mais linda. É bom ver esses animais serem cuidados”, afirmou Katlheen.
Pesquisadores do Tamar fizeram a captura científica
Ana Clara Marinho/TV Globo
A assessora de investimentos Bruna Mergulhão, visitante de São Paulo, ficou encantada. “Achei lindo, muito fofo. São importantes as ações de cuidar, preservar e monitorar. Nós, turistas, devemos participar e ajudar. Fiquei bem feliz”, declarou Bruna.
Especialista em seguros, Renan Rodrigues, que também é turista de São Paulo, exaltou o trabalho de preservação do Projeto Tamar.
“O trabalho de Tamar é maravilhoso. Em toda costa do Brasil, eles cuidam das tartarugas e do meio ambiente. Isso nos enche de orgulho. É coincidência estar na ilha esta semana e muito gratificante”, disse Renan.
A coordenadora do Tamar, Refaely Ventura, contou que a captura científica com a presença do público ajuda a preservar as tartarugas.
“Nós conseguimos passar a mensagem de sensibilização e educação ambiental para, no futuro, ter um retorno”, declarou a coordenadora do Projeto Tamar.
Além do Tamar, a programação da Semana do Meio Ambiente tem a participação do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), Administração da Ilha, Projeto Golfinho Rotador e empresas privadas e segue até sábado (11).
Programação:
Sexta-feira (10)
9h às 11h – Visita monitorada ao espaço Neoenergia e Visita monitorada na Compesa
14h às 16h – Visita monitorada no espaço Neoenergia e Visita monitorada na Compesa
19h30 – Palestra Projeto Tamar, no auditório Projeto Tamar, com show musical
Sábado (11)
8h – Trilha do Atalaia para alunos da Alma Solar de surfe e skate Noronha
9h – “Vem passarinhar”, com pesquisadores do Projeto Aves de Noronha, na Trilha do Sancho
14h – Visita monitorada ao contêiner da Praça Flamboyant
18h – Leitura de contos ambientais com Gustavo Bezerra, no auditório do Projeto Tamar
19h30 – Cineclube Ambiental, no auditório do Projeto Tamar.
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Indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips desapareceram durante viagem de barco na Amazônia, no domingo (5). Polícia Federal apura caso e buscas são feitas na região. O presidente Jair Bolsonaro disse nesta terça-feira (7) que espera que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos na Amazônia desde o domingo (5), sejam encontrados “brevemente”.
Os dois sumiram no domingo (5), na região do Vale do Javari, no estado do Amazonas. Segundo a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) eles desapareceram no trajeto entre a comunidade Ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte
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De acordo com Bolsonaro, duas pessoas foram detidas pela Polícia Federal e são investigadas. O presidente disse que a região onde ocorreu o desaparecimento é “completamente selvagem” e “onde tudo pode acontecer”.
Ele afirmou ainda que viagem que os dois faziam no Amazonas “é uma aventura que não é recomendável.”
“O que nós sabemos até o momento? Que no meio do caminho teriam se encontrado com duas pessoas, que já estão detidas pela Polícia Federal, estão sendo investigadas. E, realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados. Tudo pode acontecer. A gente espera e pede a Deus para que sejam encontrados brevemente. As Forças Armadas estão trabalhando com muito afinco na região”, afirmou Bolsonaro.
O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira (esquerda) e o jornalista inglês Dom Phillips
TV Globo/Reprodução
Arthur Lira
Nesta terça (7), o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), defendeu “todo o apoio logístico de segurança nacional” para se esclarecer o desaparecimento do indigenista e do jornalista.
“Acho que todos os esforços estão sendo feitos. A Câmara e qualquer deputado e qualquer cidadão e todo mundo é a favor de ter máxima transparência, rigor em apurações e de todo o esforço para que se encontrem pessoas, que se imputem o desaparecimento e muito mais na forma que foi”, disse o deputado.
O presidente da Câmara disse, ainda, que “todas as autoridades brasileiras devem estar focadas” nesta investigação. “Polícia Federal, Ministério da Justiça, enfim, todo apoio logístico de segurança nacional para esclarecer esse caso”, afirmou.
Ameaças
De acordo com a Univaja, o indigenista Bruno Araújo Pereira, que foi coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Atalaia do Norte, recebia constantes ameaças de madeireiros, garimpeiros e pescadores.
Os dois estavam na região para visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima à localidade chamada Lago do Jaburu (próxima da Base de Vigilância da Funai no rio Ituí), para que o jornalista visitasse o local e fizesse algumas entrevistas com os indígenas.
Segundo o jornal inglês “The Guardian”, para o qual Phillips colabora, o jornalista está trabalhando em um livro sobre meio ambiente com apoio da Fundação Alicia Patterson.
Ele mora em Salvador e também faz reportagens sobre o Brasil há mais de 15 anos para outros veículos como “Washington Post”, “New York Times” e “Financial Times”.
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